Será Hiperactivo?
Denominaremos de Irrequietude Motora, aquilo que comumente se chama de Hiperactividade, para nos afastarmos da conotação negativa que este termo tem vindo a adquirir ao longo do tempo.
Rejeitamos o diagnóstico de perturbação de Hiperactividade com défice de atenção e encaramos a hiperactividade/irrequietude motora como expressão/sintoma de algo que se encontra perturbado ao nível psíquico.
Assim, a Irrequietude Motora terá de ser entendida como parte integrante de um desenvolvimento desarmónico global e é a este nível, no nível daquilo que subjaz, que se deve trabalhar com as crianças que apresentam este tipo de problemas.
Encontramos, na criança irrequieta, um aparelho psíquico com dificuldade em pensar as suas angústias mais primitivas. Assim, a criança é impelida para uma movimentação sem fim, por uma insegurança interna, impossível de aliviar de outro modo, dada a sua incapacidade para pensar suficientemente sobre o que a afecta.
A criança irrequieta procura um alívio na sua movimentação.
A reacção dos que a rodeiam é procurar pará-la. Não é fácil perceber que também há algo de positivo na movimentação e que o que ela precisa é de ser ajudada a modular as suas angústias, para poder transformar parte da sua movimentação motora numa movimentação do pensamento - passar de uma motricidade irrequieta para um pensamento irrequieto, como diz o psicanalista Emílio Salgueiro.
Se continuarmos a dirigir as acções terapêuticas ao sintoma (nomeadamente medicando) e não áquilo que lhe subjaz, estaremos a pacificar as crianças que assim deixam de incomodar, sem que, no entanto se consiga pôr a funcionar o que nelas está em falta.